Edição em português

Capítulo 32

'Na corte das Tulherias', disse o sr. Sillerton Jackson com um sorriso de recordação, 'essas coisas eram toleradas com bastante franqueza.' O lugar era a sala de jantar de nogueira preta dos van der Luyden, na Madison Avenue, na noite seguinte à visita de Archer ao museu. Os van der Luyden haviam voltado por alguns dias de Skuytercliff, para onde tinham fugido ao saber-se da falência de Beaufort. Com a sociedade abalada pelo escândalo, era indispensável que se mostrassem na cidade. Como dizia a sra. Archer, era um 'dever social' aparecer na ópera e abrir as portas da casa. 'Louisa, não podemos deixar que, num momento assim, gente nova como a sra. Lemuel Struthers pense que pode ocupar o lugar de Regina. É justamente nessas ocasiões que os novos-ricos se infiltram e tomam posições. Lembre-se do inverno em que a sra. Struthers apareceu: havia catapora, e os maridos escapuliam para a casa dela enquanto as esposas cuidavam das crianças. Você e Henry precisam tapar essa brecha.' Foi assim que os van der Luyden vieram a contragosto para a cidade, tiraram as capas dos móveis e deram dois jantares e uma recepção. Naquela noite haviam convidado o sr. Sillerton Jackson, os Archer e a mãe dele para irem juntos à ópera. Era o primeiro Fausto da temporada. Na casa dos van der Luyden nada jamais perdia a formalidade. Embora houvesse apenas quatro convidados, o jantar começou pontualmente às sete, para que todos os pratos fossem servidos em ordem e sem pressa. Archer não via a mulher desde a noite anterior. Fora cedo ao escritório, absorvido pelo trabalho acumulado,

e à tarde um sócio lhe tomou o tempo de modo imprevisto. Quando enfim chegou em casa, May já se adiantara à casa dos van der Luyden e mandara a carruagem de volta. Só então, por cima dos cravos de Skuytercliff e da baixela reluzente, ele viu que a mulher parecia pálida e cansada. Os olhos dela, porém, brilhavam com uma animação exagerada. O assunto que levou o sr. Sillerton Jackson à sua comparação favorita fora puxado — de propósito, segundo Archer — pela dona da casa. A falência de Beaufort, e sobretudo a conduta da sra. Beaufort depois dela, ainda ocupava os moralistas de salão. Depois de condená-la a fundo, a sra. van der Luyden voltou-se para May Archer. 'May, é verdade o que me contaram? Alguém viu a carruagem de sua avó parada diante da porta da sra. Beaufort.' Notava-se que ela já não chamava a aludida pelo nome. May corou, e a sra. Archer apressou-se a intervir: 'Se foi assim, tenho certeza de que aconteceu sem que a sra. Manson Mingott soubesse.' 'Ah, a senhora acha?', suspirou a sra. van der Luyden, olhando para o marido. 'Talvez o bom coração da condessa Olenska a tenha levado a visitar a sra. Beaufort', disse o sr. van der Luyden. 'Ou o gosto dela por gente esquisita', acrescentou a sra. Archer em tom indiferente, os olhos fixos no filho com fingida inocência. 'Lamento pensar assim da condessa Olenska', disse a sra. van der Luyden. E a sra. Archer murmurou com doçura: 'Ah, e a senhora a convidou duas vezes para Skuytercliff.' Foi então que o sr. Sillerton Jackson viu sua oportunidade. 'Na corte das Tulherias...'

prosseguiu ele, vendo todos os olhares voltados para si, 'em certos aspectos os costumes eram frouxos demais. Se alguém perguntasse de onde vinha o dinheiro de Morny! Ou quem pagava as dívidas das belezas da corte...' 'Meu caro Sillerton, o senhor não está propondo que adotemos tais costumes', disse a sra. Archer. 'Jamais proporia isso', respondeu o sr. Jackson com calma. 'Digo apenas que a educação estrangeira da condessa Olenska talvez a tenha tornado menos escrupulosa.' 'Ah', suspiraram as duas senhoras idosas. 'Mas deixar a carruagem da avó diante da porta de um falido!', protestou o sr. van der Luyden. Archer pensou nos cestos de cravos mandados para a casinha da Rua Vinte e Três e adivinhou que o anfitrião se lembrava disso com desagrado. 'Sempre achei que ela vê tudo de outro modo', concluiu a sra. Archer. O rubor subiu à testa de May, que olhou para o marido e disse de repente: 'Tenho certeza de que Ellen fez isso por pura bondade.' 'Os imprudentes costumam ser bondosos', disse a sra. Archer, num tom que dava a entender que isso não era desculpa. Então a sra. van der Luyden murmurou: 'Se ao menos tivesse consultado alguém.' 'Ah, ela nunca consulta!', concordou a sra. Archer. Nesse momento o sr. van der Luyden olhou para a mulher, e ela inclinou levemente a cabeça na direção da sra. Archer. As longas caudas dos três vestidos sumiram pela porta, e os homens tiraram os charutos. Nas noites de ópera o sr. van der Luyden oferecia charutos curtos, tão bons que os convidados lamentavam sua pontualidade. Terminado o primeiro ato, Archer afastou-se do grupo e foi para o fundo do camarote do clube.

Ali, por sobre os ombros de Chivers, Mingott e Rushworth, contemplou a mesma cena que vira dois anos antes, na noite em que conhecera Ellen Olenska. Quase esperava vê-la de novo no camarote da velha sra. Mingott, mas o camarote estava vazio. Ficou imóvel, olhando para lá, até que

de repente a voz pura de soprano da sra. Nilsson irrompeu em 'M'ama, non m'ama...' e o despertou. Voltou os olhos para o palco. Ali, entre as conhecidas rosas gigantes e as flores de sempre, a mesma vítima loura e corpulenta sucumbia ao mesmo tentador pequeno e moreno.

Seu olhar passou do palco para a plateia. May estava sentada entre duas senhoras idosas, tal como na noite em que ele conhecera Ellen, quando ela se sentava entre a sra. Lovell Mingott e a prima 'estrangeira' recém-chegada. Como naquela noite, vestia-se toda de branco. Archer não havia reparado no traje até reconhecer o cetim branco azulado e a renda antiga do vestido de noiva. Na velha Nova York era costume que a noiva usasse de novo aquele vestido caro no primeiro ou segundo ano de casamento. A mãe de Archer guardava o seu embrulhado em papel de seda, esperando que Janey um dia o usasse; mas a pobre Janey ia chegando a uma idade em que a popelina cinza-pérola e a ausência de damas de honra eram mais 'apropriadas'. Como May quase não o usara desde a volta da Europa, ele se surpreendeu ao vê-la assim vestida, e não pôde deixar de compará-la à moça

que contemplara com felicidade na véspera do noivado. A cintura de May engrossara um pouco, como seu porte de deusa anunciava; mas conservava o mesmo porte ereto e a mesma transparência infantil. Não fosse certa langidez recente, seria a mesma moça que brincava com os lírios-do-vale na noite do noivado. Isso aumentou sua compaixão. Aquela inocência o comovia como a mão de uma criança que confia e se agarra. Então lembrou-se da generosidade apaixonada escondida sob aquela calma indiferente. Lembrou-se do olhar de compreensão dela quando ele quis anunciar o noivado no baile de Beaufort, e ouviu de novo sua voz no jardim da Missão: 'Não posso construir minha felicidade sobre uma injustiça.' E o tomou um desejo incontível de lhe dizer a verdade e de pedir a liberdade que ele mesmo um dia recusara.

Newland Archer era um jovem calado e senhor de si. Submeter-se à disciplina de uma sociedade estreita tornara-se quase sua segunda natureza. Repugnava-lhe fazer algo vistoso e teatral, algo que o sr. van der Luyden desaprovasse e que o camarote do clube julgasse de mau gosto. Mas de repente ele deixou de ter consciência do camarote do clube, do sr. van der Luyden e de tudo o que por tanto tempo o mantivera no cercado morno do hábito. Percorreu o corredor semicircular dos fundos e abriu a porta do camarote da sra. van der Luyden como se fosse a porta de um mundo desconhecido. 'M'ama!', ressoou a voz triunfante de Marguerite; e os ocupantes do camarote ergueram os olhos, surpresos com a irrupção de Archer. Ele já havia quebrado uma das regras do seu mundo: era proibido entrar num camarote durante uma ária. Enfiando-se entre o sr. van der Luyden e o sr. Sillerton Jackson, inclinou-se para a mulher. 'Estou com uma dor de cabeça insuportável. Não diga a ninguém: vamos para casa?', sussurrou. May olhou-o como se compreendesse, e Archer viu-a murmurar algo à mãe dele, que assentiu com ar de compaixão. May murmurou uma despedida à sra. van der Luyden e levantou-se no instante exato em que Marguerite caía nos braços de Fausto. Enquanto lhe punha a capa de ópera,

Archer notou que as senhoras idosas trocavam um sorriso cheio de intenção. May subiu com ele na carruagem e pousou de leve a mão sobre a dele. 'Sinto tanto que você não esteja bem. Não estará trabalhando demais no escritório?' 'Não. Não é isso. Importa-se que eu abra a janela?', respondeu ele, confuso, e baixou o vidro do seu lado. Ficou olhando para fora, os olhos nas casas que passavam. Sentia ao lado a mulher observando-o em silêncio. Diante de casa, a cauda do vestido de May prendeu-se no estribo e ela caiu contra Archer. 'Você se machucou?', perguntou ele, amparando-a com o braço. 'Não. Mas o meu pobre vestido — olhe, rasgou!', suspirou ela, recolhendo a barra suja de lama. Entraram em casa,

onde as luzes estavam quase apagadas, pois não os esperavam tão cedo. Archer subiu, acendeu a luz e as lâmpadas dos dois lados da lareira da biblioteca. Com as cortinas fechadas, o cômodo tinha um ar morno e familiar que o atingiu como um rosto conhecido encontrado a caminho de algo inconfessável. Notou que a mulher estava pálida e perguntou se devia lhe trazer conhaque. 'Não', respondeu ela, corando por um instante. 'Mas não seria melhor você ir se deitar logo?', acrescentou ao vê-lo abrir a caixa de prata sobre a mesa e tirar um cigarro. Archer largou o cigarro e foi ao seu lugar de sempre junto ao fogo. 'Não. A cabeça não dói tanto assim.' Fez uma pausa. 'E há uma coisa importante que preciso lhe dizer agora.' Ela sentou-se na poltrona, ergueu a cabeça e esperou. 'Sim, querido', disse com tamanha doçura que o desconcertou não vê-la surpresa. 'May...', começou ele, de pé a alguns passos da poltrona, olhando-a como se aquela distância contivesse o que havia de difícil a dizer. Sua voz soou estranha no silêncio da casa, e ele repetiu: 'Tenho uma coisa a lhe dizer... sobre mim.' Ela continuou sentada, imóvel. Ainda estava pálida, mas no rosto havia uma calma que parecia vir de alguma serenidade interior e secreta. Archer decidiu não pronunciar as frases feitas com que ia se acusar. Queria expor os fatos como eram,

sem desculpas nem autopiedade. 'Sobre a condessa Olenska...', disse ele. E a mulher ergueu a mão como para detê-lo; ao fazê-lo, a luz do gás brilhou em sua aliança. 'Precisamos falar de Ellen esta noite?', disse ela com leve impaciência. 'Porque eu devia ter falado antes.' May respondeu, sempre serena: 'É mesmo necessário, querido? Sei que às vezes fui injusta com ela. Talvez todos tenhamos sido. Você a entendeu melhor do que nós; sempre foi bom para ela. Mas que importa agora, se tudo acabou?' Archer olhou-a com ar ausente. Teria a sensação de irrealidade em que ele vivia preso alcançado também a mulher? 'Tudo acabou — o que quer dizer com isso?', perguntou a custo. May continuava a olhá-lo com olhos límpidos. 'Ora, porque ela volta em breve para a Europa. A vovó aprova e compreende; arranjou tudo para que ela possa viver independente do marido.' Ela parou, e Archer agarrou-se convulsamente à borda do consolo da lareira para se firmar, tentando acalmar os pensamentos em desordem. 'Eu pensei', ouviu a voz tranquila da mulher prosseguir, 'que você tivesse ficado no escritório a tarde toda justamente por causa disso. Disseram-me que hoje de manhã ficou tudo resolvido.' Ela baixou a cabeça como que fugindo ao olhar dele, e um rubor passou fugaz pelo seu rosto.

Ele compreendeu como o seu olhar era insuportável para ela, virou-se e apoiou o cotovelo no consolo, escondendo o rosto. Algo lhe zumbia forte nos ouvidos, e ele não sabia se era o bater do sangue nas veias ou o tique-taque do relógio da lareira. May continuava sentada, imóvel e calada. O relógio contou lentamente cinco minutos. Um carvão caiu para a frente, e ao ouvi-la levantar-se para empurrá-lo de volta, Archer enfim se virou e a encarou. 'É impossível', exclamou. 'Impossível... o quê?' 'Como você sabe o que acabou de me dizer?' 'Vi Ellen ontem. Já lhe contei que a encontrei na casa da vovó.' 'Foi então que ela lhe disse?' 'Não. Recebi um bilhete dela esta tarde. Quer vê-lo?' A voz lhe faltou, e May saiu da sala e voltou quase em seguida. 'Pensei que você já soubesse', disse ela com simplicidade. Pôs uma folha sobre a mesa, e Archer estendeu a mão e a tomou. A carta trazia apenas algumas linhas. 'Querida May, consegui enfim fazer a vovó entender que minha visita só podia ser uma visita. Ela foi tão boa e generosa como sempre. Agora aceita que, ao voltar para a Europa, terei de viver sozinha, ou com a pobre tia Medora, que logo virá para junto de mim. Corro de volta a Washington para arrumar as malas. Parto na semana que vem. Seja muito boa com a vovó quando eu tiver ido, tão boa quanto sempre foi comigo.

Sua Ellen. E se algum amigo quiser me fazer mudar de ideia, diga-lhe de minha parte que seria inútil.' Archer releu a carta duas ou três vezes. Depois pousou-a e caiu numa gargalhada. O próprio riso o assustou. Lembrou-lhe a noite em que Janey, apavorada, o encontrara de madrugada sacudido por um riso incompreensível diante do telegrama que anunciava a antecipação do casamento. 'Por que ela escreveu isto?', perguntou, contendo o riso a custo. May respondeu com seriedade inabalável: 'Suponho que porque ontem conversamos sobre muitas coisas.' 'Sobre que coisas?' 'Confessei-lhe que fui injusta com ela, que não compreendi como tudo aqui devia ser difícil para ela. Sozinha entre parentes que no entanto lhe eram estranhos; entre gente que se julgava no direito de julgá-la sem entender de fato a sua situação.' May fez uma pausa. 'Sabia também que você sempre fora seu apoio, e quis lhe dizer que você e eu sentíamos o mesmo em tudo isso.' Hesitou um momento, como à espera de que ele falasse, e acrescentou devagar: 'Acho que ela entendeu por que eu queria lhe dizer isso. Acho que ela entende tudo.' May aproximou-se de Archer, tomou-lhe a mão fria e encostou-a por um instante no rosto. 'Eu também estou com dor de cabeça. Boa noite, querido', disse, e virou-se para a porta. Seu vestido de noiva, rasgado e sujo de lama, arrastou-se pelo chão enquanto ela atravessava a sala.