Edição em português
Capítulo 33
Como a sra. Archer disse rindo à sra. Welland, o primeiro grande jantar de um casal jovem era um acontecimento. Desde que tinham casa própria, os Newland Archer haviam recebido muita gente sem cerimônia. Archer gostava de jantar com três ou quatro amigos, e May os acolhia com o sorriso luminoso que a mãe lhe ensinara pelo exemplo. O marido duvidava que ela, entregue a si mesma, algum dia convidasse alguém; mas havia muito desistira de separar o eu verdadeiro da forma em que a tradição e a educação a haviam moldado. Dava-se por certo que, em Nova York, um casal jovem com folga financeira devia receber com frequência de modo informal, e que uma filha dos Welland casada com um Archer tinha dever dobrado de cumprir esse costume. Mas um grande jantar, com cozinheiro contratado, dois criados emprestados, ponche romano, rosas de Henderson e cartões de menu com borda dourada, era coisa muito diferente e não se fazia com leveza. Como dizia a sra. Archer, o ponche romano mudava tudo: não por si mesmo, mas pelo que implicava. Ponche romano significava pato-selvagem ou tartaruga, duas sopas, uma sobremesa quente e outra fria, decotes profundos com mangas curtas e convidados de peso.
Enviar pela primeira vez convites em terceira pessoa era sempre assunto interessante, e até as pessoas de longa vida social achavam difícil recusá-los. Ainda assim, foi um verdadeiro triunfo que os van der Luyden concordassem, a pedido de May, em ficar em Nova York para o jantar de despedida da condessa Olenska. Naquela tarde, as duas mães estavam sentadas na sala de May. A sra. Archer escrevia os menus no cartão Bristol mais grosso e dourado da Tiffany, enquanto a sra. Welland supervisionava a disposição das palmeiras e dos abajures de pé. Quando Archer chegou tarde do escritório, ambas ainda estavam lá. A sra. Archer preparava os cartões de nome para a mesa, e a sra. Welland pensava em puxar para a frente o grande sofá dourado, formando outro 'canto' entre o piano e a janela. Disseram-lhe que May estava na sala de jantar, conferindo as rosas Jacqueminot e a avenca do centro da longa mesa, e os bombons Maillard nas cestas de prata vazadas entre os castiçais. Sobre o piano havia uma grande cesta de orquídeas mandada pelo sr. van der Luyden de Skuytercliff. Tudo estava perfeitamente pronto para o grande acontecimento.
A sra. Archer percorreu a lista com cuidado, marcando cada nome com sua afiada pena dourada. 'Henry van der Luyden, Louisa, os Lovell Mingott, os Reggie Chivers, Lawrence Lefferts e Gertrude — sim, May fez bem em convidá-los —, os Selfridge Merry, Sillerton Jackson, Van Newland e a mulher. Como o tempo voa! Parece que foi ontem que ele foi seu padrinho de casamento, Newland — e a condessa Olenska. Sim, acho que basta...' A sra. Welland olhou o genro com afeto. 'Ninguém poderá negar, Newland, que May está despedindo-se de Ellen com toda a elegância.' 'Ah, sim', disse a sra. Archer. 'Compreendo o desejo de May de que a prima diga lá fora que não somos uns completos selvagens.' 'Ellen com certeza vai apreciar. Disseram-me que ela chegava esta manhã. Ficará com uma ótima última impressão: a véspera do embarque costuma ser tão triste', acrescentou alegremente a sra. Welland.
Archer foi até a porta, e a sogra o chamou de volta. 'Entre e veja a mesa. E não deixe May se cansar demais.' Mas ele fingiu não ouvir e subiu correndo as escadas para a biblioteca. O cômodo tinha o ar de um rosto que lhe era estranho e sorria à força. Pareceu-lhe 'arrumado', com toda sorte de cinzeiros e caixas de cedro dispostos para que os convidados pudessem fumar. 'Bem, não vai durar muito...', pensou, e passou ao vestiário. Fazia dez dias que a condessa Olenska deixara Nova York. Nesse tempo Archer não tivera notícias dela, salvo uma chave embrulhada em papel de seda que chegou ao escritório, num envelope com a letra dela. Aquela resposta ao seu último apelo podia passar por um gesto comum de despedida, mas Archer decidiu interpretá-la de outro modo. Ela ainda lutava contra o próprio destino, e ao partir para a Europa não pretendia voltar para o marido. Nada, portanto, o impedia de segui-la; e acreditava que ela não o rejeitaria se conseguisse provar-lhe que tomara uma decisão irrevogável.
Essa certeza sobre o futuro permitia-lhe desempenhar o papel presente. Graças a ela, podia abster-se de escrever e de mostrar a dor e o desânimo que sentia. Parecia-lhe que, no jogo calado e mortal entre os dois, ainda tinha na mão uma carta capaz de decidir tudo, e esperava. Ainda assim, houve horas difíceis. Uma delas veio no dia seguinte à partida dela, quando o sr. Letterblair o chamou para examinar os detalhes do fundo que a sra. Manson Mingott queria constituir para a neta. Por duas horas Archer estudou as cláusulas com o chefe, sentindo cada vez mais que não fora chamado só pelo parentesco e que o motivo apareceria ao fim da reunião. 'Bem, a condessa não poderá negar que estas são condições excelentes', concluiu o sr. Letterblair depois de murmurar um resumo. 'Devo dizer que, no conjunto, ela foi tratada com muita generosidade.' 'No conjunto?', repetiu Archer com leve escárnio. 'O senhor se refere à oferta do marido de devolver o dinheiro dela?' As sobrancelhas espessas do sr. Letterblair subiram um pouco. 'Meu caro jovem, a lei é a lei. E a prima de sua esposa casou-se sob a lei francesa. Ela sabia o que isso significava.' 'Mesmo que soubesse, o que aconteceu depois...'
Archer parou. O sr. Letterblair levou o cabo da pena ao grande nariz enrugado e assumiu o ar de um velho senhor virtuoso que quer fazer um jovem entender que virtude não é sinônimo de ignorância. 'Meu caro jovem, não pretendo desculpar as faltas do conde. Mas, por outro lado... não ponho a mão no fogo, mas... bem, pode ter havido correspondência com aquele jovem campeão...' O sr. Letterblair abriu uma gaveta, tirou uma folha e empurrou-a para Archer. 'Este é um relatório feito com toda a discrição...' Como Archer não olhou o documento nem tentou refutar a insinuação, o advogado continuou com certa indiferença: 'Não digo que seja conclusivo. Longe disso. Mas, diante da situação, este arranjo digno acaba parecendo satisfatório para todas as partes.' 'Muito satisfatório', concordou Archer, afastando o papel.
Um ou dois dias depois, quando a sra. Manson Mingott mandou chamá-lo e ele foi vê-la, seu ânimo foi posto à prova mais fundo. Encontrou a velha senhora abatida e resmungona. 'Sabe que ela me abandonou?', disse logo. E sem esperar resposta: 'Não me pergunte por quê! Deu-me tantas razões que esqueci todas. Na minha opinião, ela não suportava o tédio. De todo modo, é o que pensam Augusta e minhas noras. E não posso culpá-la de todo. Olenski é um canalha rematado, mas a vida com ele devia ser bem mais brilhante que a da Quinta Avenida. A família não admite isso, claro: acha que a Quinta Avenida é o céu com a Rue de la Paix ao lado. A pobre Ellen não pensa em voltar para o marido; continua recusando com firmeza. Então vai instalar-se em Paris com aquela tola da Medora... Enfim, Paris é Paris; lá se mantém uma carruagem por quase nada. Ela era alegre como um passarinho; vou sentir falta dela.' Duas lágrimas, lágrimas de velha ressecada, desceram pelas faces inchadas e se perderam em seu peito. 'Só peço uma coisa', concluiu: 'que não me aborreçam mais. Que me deixem tomar meu mingau em paz...' E sorriu para Archer com um olhar um tanto melancólico.
Naquela noite, quando Archer voltou para casa, May anunciou que daria um jantar de despedida para a prima. Desde a noite em que ela partira para Washington, o nome da condessa Olenska não fora pronunciado entre eles, e Archer olhou a mulher com surpresa. 'Um jantar? Por quê?' May corou. 'Mas você gosta de Ellen. Pensei que ficaria contente.' 'É muito gentil você dizer assim. Mas não vejo por quê...' 'Pretendo fazê-lo, Newland', disse ela com calma, levantando-se e indo à escrivaninha. 'Aqui estão os convites já escritos. Mamãe me ajudou; ela também acha que devemos fazer.' Parou, um pouco constrangida, mas sorrindo, e a Archer pareceu de repente que ela era a encarnação da Família. 'Está bem, tudo bem', disse ele, olhando distraído a lista de convidados que ela lhe pôs na mão.
Quando entrou na sala antes do jantar, May afadigava-se diante da lareira de azulejos limpos, tentando fazer as achas pegarem fogo. Todas as lâmpadas altas estavam acesas, e as orquídeas do sr. van der Luyden destacavam-se entre porcelanas modernas e prataria repuxada. A sala da sra. Newland Archer era em geral tida como um grande acerto. Um vaso de bambu dourado, com prímulas e cinerárias trocadas com regularidade, barrava o caminho para a janela saliente, onde os apreciadores do antigo teriam posto um bronze reduzido da Vênus de Milo. Sofás e poltronas de brocado claro estavam habilmente dispostos em torno de mesinhas cobertas de veludo, atulhadas de bibelôs de prata, bichinhos de porcelana e molduras vistosas. E altos abajures de cúpula rósea erguiam-se entre as palmeiras como flores tropicais. 'Acho que Ellen nunca viu esta sala tão iluminada', disse May, erguendo-se com o rosto corado da luta contra a lareira e percorrendo o cômodo com um olhar de orgulho perdoável. As tenazes de latão encostadas junto ao fogo caíram com um estrépito que abafou a resposta do marido; e antes que Archer pudesse apanhá-las, anunciaram os van der Luyden.
Os demais convidados chegaram logo em seguida, pois todos sabiam que os van der Luyden gostavam de jantar na hora. A sala estava quase cheia, e Archer mostrava à sra. Selfridge Merry um quadrinho brilhante de Verbeckhoven intitulado 'Estudo de ovelhas', presente de Natal do sr. Welland a May, quando notou a condessa Olenska a seu lado. Estava muito pálida, e essa palidez fazia o cabelo escuro parecer mais denso e pesado. Talvez por isso, ou pelas várias voltas de contas de âmbar que trazia ao pescoço, Archer lembrou-se de repente da pequena Ellen Mingott dançando nas festas infantis, quando Medora Manson a trouxe pela primeira vez a Nova York. O âmbar não combinava com sua pele, e talvez o vestido também não: seu rosto parecia sem brilho e quase feio. E nunca ele o amara tanto quanto naquele instante. As mãos dos dois se tocaram, e pareceu-lhe ouvi-la dizer: 'Sim, embarco amanhã no Russia.' Então ouviu-se uma porta e, momentos depois, a voz de May: 'Newland! O jantar está servido. Quer levar Ellen?'
A condessa Olenska pôs a mão em seu braço, e ele notou que ela não usava luvas. E lembrou-se da noite em que, sentado ao lado dela na salinha da Rua Vinte e Três, observara aquelas mãos. Toda a beleza que se retirara de seu rosto parecia ter florescido nos dedos longos e pálidos e nos nós levemente afundados. E disse consigo: 'Ainda que fosse só para rever suas mãos, eu teria de segui-la.' Só num jantar oferecido a uma 'visitante estrangeira' a sra. van der Luyden podia aceitar sentar-se à esquerda do anfitrião. A condição de 'estrangeira' da condessa ficava assim ainda mais sublinhada por aquele jantar de despedida. E a sra. van der Luyden prestou-se de bom grado ao arranjo, marcando assim sua aprovação. Havia coisas que precisavam ser feitas e que, feitas, deviam ser feitas com dignidade e a fundo. E uma delas, segundo o costume da velha Nova York, era essa cerimônia em que a tribo se reúne em torno de uma parenta que está prestes a expulsar. Os Welland e os Mingott estavam prontos a tudo para mostrar seu afeto inalterável à condessa Olenska, agora pronta a partir para a Europa.
E Archer, sentado à cabeceira, contemplava aquele espetáculo, admirando como a popularidade dela fora restaurada, as queixas silenciadas, seu passado tolerado e seu presente iluminado pela aprovação da família. A sra. van der Luyden lançava-lhe aquele favor tênue que nela era o mais próximo da ternura, e o sr. van der Luyden, à direita de May, olhava para a outra ponta da mesa como que a justificar os cravos mandados de Skuytercliff. Archer observava a cena numa estranha ausência de peso, como se flutuasse entre o lustre e o teto, e o que mais o espantava era a própria participação naquilo. Quando seu olhar corria pelos rostos calmos e saciados, toda aquela gente de ar inocente que comia o pato de May lhe parecia um bando de conspiradores mudos, e ele e a mulher pálida à sua direita, o centro da conspiração. E então lhe veio, de golpe, a revelação: para eles, Archer e a condessa Olenska eram amantes, amantes no sentido extremo do vocabulário 'estrangeiro'.
Compreendeu que havia meses era objeto da atenção de inúmeros olhos e ouvidos calados. E compreendeu que, sem saber como haviam conseguido separá-lo da cúmplice, agora toda a tribo se reunia em torno de sua mulher, sob o pressuposto tácito de que ninguém sabia nada e ninguém imaginara nada. Aquele jantar não era senão a expressão natural do desejo de May Archer de despedir-se com carinho da amiga e prima. Era o velho modo de Nova York: tomar a vida 'sem derramar sangue'. Temiam o escândalo mais que a doença, punham o decoro acima da coragem e julgavam que nada era mais grosseiro do que 'fazer um escândalo', salvo a conduta de quem dava motivo para isso. Enquanto esses pensamentos se sucediam em sua cabeça, Archer sentiu-se como um preso no meio de um acampamento armado. Olhou em volta da mesa e adivinhou a implacabilidade daquela gente pelo tom com que falava dos Beaufort enquanto comia aspargos da Flórida. 'Isto é para me mostrar o que aconteceria comigo...'
Pareceu-lhe que a superioridade da insinuação sobre o ato direto, e a do silêncio sobre a palavra imprudente, se fechava sobre ele como a porta de um jazigo de família. Ele riu, e a sra. van der Luyden olhou-o surpresa. 'O senhor acha isso engraçado?', disse com um sorriso forçado. 'É verdade que a ideia de a pobre Regina ficar em Nova York tem seu lado ridículo, suponho.' E Archer murmurou: 'Certamente.' Naquele momento notou que o outro vizinho da condessa Olenska falava havia algum tempo com a senhora à sua direita. Ao mesmo tempo viu May, que reinava serena entre o sr. van der Luyden e o sr. Selfridge Merry, lançar um olhar rápido para a outra ponta da mesa. Era claro que o anfitrião e a senhora à sua direita não podiam ficar calados a noite toda. Virou-se para a condessa, e o pálido sorriso dela veio ao seu encontro. 'Ah, aguentemos até o fim', parecia dizer aquele sorriso.
'A viagem não a cansou?', perguntou ele com uma voz cuja naturalidade o surpreendeu. Ela respondeu que, pelo contrário, poucas vezes viajara com tão poucos incômodos. 'A não ser, claro, pelo calor terrível do trem', acrescentou; e Archer observou que no país para onde ia não encontraria tal calor. 'Nunca', declarou com veemência, 'passei tanto frio como uma vez, em abril, no trem de Calais a Paris.' Ela disse que não se admirava, mas que afinal sempre se podia levar mais um cobertor, e que toda viagem tem suas agruras. A isso ele respondeu de repente que aquilo não era nada diante da bênção de poder fugir de tudo. O rosto dela se acendeu, e ele acrescentou, erguendo a voz: 'Eu também pretendo viajar muito em breve.' Um tremor passou pelo rosto dela; e Archer, inclinando-se para Reggie Chivers, gritou: 'Escute, Reggie! Que tal darmos a volta ao mundo? Que acha do mês que vem? Estou pronto quando quiser.'
A isso a sra. Reggie disse que não podia deixar Reggie partir antes do baile Martha Washington que preparava para o asilo de cegos na Páscoa; e o marido observou com brandura que por essa época teria de estar treinando para a partida internacional de polo. Mas o sr. Selfridge Merry ouvira 'volta ao mundo', e como certa vez dera a volta ao globo em seu iate a vapor, começou a contar algumas observações interessantes sobre a pouca profundidade dos portos do Mediterrâneo. Acrescentou, porém, que afinal quem viu Atenas, Esmirna e Constantinopla, o que lhe resta ver? A sra. Merry disse que seria sempre grata ao doutor Bencomb por lhes ter feito prometer que não iriam a Nápoles, por causa das febres. 'Mas para ver bem a Índia são precisas três semanas', concedeu o marido, cuidando de não passar por viajante frívolo. E nesse ponto as senhoras subiram para a sala.
Na biblioteca, embora ali houvesse homens de mais peso, quem conduzia a conversa era Lawrence Lefferts. O assunto derivou, como sempre, para os Beaufort, e até o sr. van der Luyden e o sr. Selfridge Merry, instalados nas poltronas de honra tacitamente reservadas, pararam um instante para ouvir a filípica do rapaz. Lefferts desdobrou, mais que nunca, os sentimentos que exaltam o valor da virilidade cristã e a santidade do lar. A indignação lhe dava uma eloquência afiada, e era claro que, se os outros tivessem agido como ele pregava, a sociedade jamais teria sido fraca a ponto de acolher um arrivista de origem estrangeira como Beaufort. Pouco importava que ele tivesse casado com uma Dallas em vez de uma van der Luyden ou uma Lanning. Lefferts perguntava com veemência como Beaufort teria podido aparentar-se com uma família como os Dallas se pessoas como a sra. Lemuel Struthers não se houvessem infiltrado atrás dele em certas casas. Se a sociedade decidisse abrir as portas a mulheres vulgares, o dano não seria grande, embora o proveito fosse duvidoso. Mas assim que começasse a tolerar homens de origem incerta e fortuna turva, advertiu, o desmoronamento total não tardaria. 'Se seguirmos nesse passo', trovejou Lefferts como um jovem profeta vestido por Poole e ainda não apedrejado, 'veremos nossos filhos disputando um convite na casa de trapaceiros e casando-se com os bastardos de Beaufort.'
'Ei, ei, modere-se!', protestaram Reggie Chivers e o jovem Newland. Selfridge Merry pareceu de fato assustado, e no rosto sensível do sr. van der Luyden pintaram-se a dor e o nojo. 'Ele tem mesmo algum?', perguntou o sr. Sillerton Jackson, aguçando o ouvido. Lefferts quis safar-se com uma risada, mas o sr. Sillerton Jackson sussurrou ao ouvido de Archer: 'Curiosos, esses que querem sempre endireitar o mundo. Os que têm os piores cozinheiros são os que sempre reclamam de envenenamento quando jantam fora. Mas desta vez o nosso amigo Lawrence tem suas razões para tanto ardor: desta vez, pelo que ouvi, é uma datilógrafa...' A conversa passava por Archer como um rio sem sentido que corre porque não sabe parar. Via nos rostos em volta interesse, divertimento e até bom humor. Ouvia o riso dos moços e os elogios pensativos do sr. van der Luyden e do sr. Merry ao madeira que ele mandara servir. E por entre tudo isso percebia vagamente uma espécie de bondade geral, como se seus guardas tentassem suavizar-lhe a prisão. E essa ideia acendeu ainda mais sua decisão de ser livre. Na sala, aonde subiram logo para se juntar às senhoras,
encontrou o olhar triunfante de May e leu nele a certeza de que tudo saíra às mil maravilhas. Ela se ergueu do lado da condessa Olenska, e no mesmo instante a sra. van der Luyden a convidou para o sofá dourado. A sra. Selfridge Merry atravessou a sala para se juntar a elas, e Archer compreendeu que também ali prosseguia a conspiração de reabilitação e apagamento. O tecido silencioso que sustentava seu pequeno mundo parecia decidido a deixar claro que jamais duvidara da conduta da condessa Olenska nem da plenitude da felicidade doméstica de Archer. Toda aquela gente amável e implacável fingia com firmeza, uns diante dos outros, que nunca ouvira, suspeitara nem sequer imaginara o contrário. E no meio daquele elaborado disfarce mútuo, Archer compreendeu de novo que Nova York o tinha por amante da condessa Olenska. Viu o brilho de triunfo nos olhos da mulher e entendeu pela primeira vez que ela partilhava dessa crença.
Essa descoberta lhe arrancou um riso interior de demônio enquanto tentava falar do baile Martha Washington com a sra. Reggie Chivers e a jovem sra. Newland; e assim a noite prosseguiu, como um rio que não sabe parar. Por fim viu a condessa Olenska levantar-se para despedir-se. Soube que ela partiria logo, e tentou lembrar-se do que lhe dissera ao jantar, mas não conseguiu recordar uma só palavra. Ela se aproximou de May, e os outros formaram um círculo à sua volta. As duas jovens deram-se as mãos, e May inclinou-se para beijar a prima no rosto. 'Sem dúvida nossa anfitriã é a mais bonita das duas', ouviu Archer Reggie Chivers murmurar à jovem sra. Newland. E lembrou-se dos gracejos de Beaufort sobre a beleza sem efeito de May.
Um instante depois estava no vestíbulo, lançando a capa sobre os ombros da condessa Olenska. Em meio à confusão, mantinha firme a decisão de nada dizer que a assustasse ou constrangesse. Convencido de que já nenhuma força podia detê-lo, deixava tudo seguir seu curso natural. Mas ao sair atrás dela para o vestíbulo, desejou ardentemente um instante a sós junto à porta da carruagem. 'Sua carruagem chegou?', perguntou Archer. Naquele momento a sra. van der Luyden respondeu, com o gesto elegante de enrolar-se nas peles: 'Nós vamos levar nossa querida Ellen para casa.' O coração de Archer deu um baque, e a condessa, segurando capa e leque numa das mãos, estendeu-lhe a outra. 'Adeus', disse ela. 'Adeus. Mas nos veremos em breve em Paris', respondeu Archer. Pareceu-lhe tê-lo gritado. 'Ah', murmurou ela, 'se o senhor e May pudessem ir...!' O sr. van der Luyden aproximou-se para lhe oferecer o braço, e Archer voltou-se para a sra. van der Luyden. Por um instante, na escuridão ondulante do grande landó, entreviu o oval pálido de um rosto e uns olhos brilhantes; e ela desapareceu.
Ao subir a escada, Archer cruzou com Lawrence Lefferts e a mulher, que desciam. Lefferts deixou Gertrude passar e o segurou pela manga. 'Escute, meu velho, importa-se de dizer que jantou comigo no clube amanhã à noite? Mil obrigados, meu velho. Boa noite!' 'Não acha que tudo correu maravilhosamente?', perguntou May do limiar da biblioteca. Archer estremeceu. Assim que partiu a última carruagem, ele subira à biblioteca e se trancara ali, na esperança de que a mulher, ainda embaixo, subisse direto para o quarto. Mas May estava ali, pálida e visivelmente cansada, e ainda assim irradiando uma força que ia além do cansaço. 'Posso entrar e conversar?', perguntou. 'Claro. Mas você deve estar muito cansada.' 'Não, não estou cansada. Só queria ficar um pouco sentada com você.' 'Bem', disse Archer, chegando a poltrona dela para perto do fogo. Ela se sentou, e ele tornou a sentar-se; mas por muito tempo nenhum dos dois falou. Por fim Archer disse de repente: 'Já que não está cansada e quer conversar, há uma coisa que preciso lhe dizer. Tentei dizer na outra noite...' May olhou-o depressa. 'Sim, querido. Alguma coisa sobre você?' 'Sobre mim. Você diz que não está cansada; eu estou. Terrivelmente cansado...'
Ela logo se voltou para ele, solícita. 'Ah, eu já esperava isso, Newland! Você trabalhou demais.' 'Talvez. De todo modo, quero uma mudança.' 'Uma mudança? Vai deixar a advocacia?' 'Não, não é isso. Quero ir embora, já... para longe de tudo... bem longe.' Parou. Quis falar com indiferença, como quem está cansado demais para se alegrar com a mudança que deseja; mas não conseguiu. Fizesse o que fizesse, seu anseio continuava tremendo. 'Para longe de tudo', repetiu. 'Bem longe? Para onde, por exemplo?', perguntou ela. 'Ah, não sei. Para a Índia... ou para o Japão.' May pôs-se de pé, e ele, sentado de cabeça baixa e queixo nas mãos, sentiu em torno a presença morna e perfumada dela. 'Tão longe? Mas receio que você não possa, querido...', disse com voz trêmula, 'a menos que me leve junto.' E como ele calasse, prosseguiu com voz tão clara e igual que cada sílaba lhe batia no cérebro como um martelinho: 'Isto é, se os médicos permitirem... mas receio que não permitam. Porque, Newland, desde esta manhã tenho certeza de uma coisa que eu tanto esperava e desejava...'
Archer olhou-a com ar doente, e ela se deixou cair contra ele, escondendo o rosto em seus joelhos, desabrochando como uma rosa. 'Ah, querida', disse ele, abraçando-a e afagando-lhe os cabelos com a mão fria. Seguiu-se um longo silêncio, em que ressoou a risada zombeteira de seus demônios interiores. Pouco depois May se desprendeu de seus braços e ficou de pé. 'Você não tinha percebido...?' 'Eu... não. Quer dizer, eu esperava, claro.' Olharam-se um instante e voltaram a calar. Depois, desviando os olhos, ele perguntou de repente: 'Você contou a mais alguém?' 'Só à mamãe e à sua mãe.' Fez uma pausa e acrescentou depressa, corando: 'Ah, e a Ellen. Eu lhe contei que naquela tarde tivemos uma longa conversa. Como ela foi carinhosa!' 'Ah', disse Archer, sentindo o coração afundar. Notou que a mulher o observava com atenção. 'Você se importa que eu tenha contado primeiro a ela, Newland?' 'Importar? Por que eu me importaria?', conseguiu dizer, tentando recompor-se uma última vez. 'Mas isso foi há quinze dias. Você não disse que só hoje teve certeza?' O rosto de May corou ainda mais, mas ela não desviou os olhos. 'Não, então eu não tinha certeza. Mas disse a ela que tinha. E veja: eu estava certa!', exclamou, com os olhos azuis úmidos de triunfo.