Edição em português
Capítulo 34
Newland Archer estava à escrivaninha de sua biblioteca, na Rua Trinta e Nove Leste. Voltava de uma grande recepção no Museu Metropolitan pela abertura das novas galerias. Naqueles espaços enormes apinhavam-se objetos de inúmeras épocas, e a multidão elegante entre tesouros classificados apertou nele uma velha mola enferrujada da memória. 'Ah, aqui ficava uma das salas Cesnola', ouviu alguém dizer; e no mesmo instante tudo à sua volta se desfez. E ele estava outra vez sozinho no duro divã de couro, junto ao aquecedor, enquanto uma figura esguia de casaco de foca se afastava pelos corredores de um museu decrépito e antiquado.
Aquela aparição trouxe outras lembranças, e ele olhou com olhos novos a biblioteca em que, por trinta anos, se haviam passado suas meditações e as conversas da família. Quase tudo de importante em sua vida ocorrera naquela sala. Ali, quase vinte e seis anos antes, sua mulher lhe dissera, com rodeios tímidos, que esperava um filho. E ali, naquele inverno, batizaram seu primogênito Dallas, que por medo do frio não podiam levar à igreja; batizou-o o velho amigo deles, o bispo de Nova York, prelado magnífico e insubstituível, por muito tempo orgulho da diocese. Ali Dallas dera os primeiros passos vacilantes gritando 'Papai!', enquanto May e a babá riam atrás da porta. E ali a segunda filha deles, Mary, tão parecida com a mãe,
anunciara o noivado com o mais entediante e confiável dos muitos filhos de Reggie Chivers. E Archer a beijara através do véu de noiva antes de descer com ela até o carro que a levava à igreja de Grace. Num mundo em que tudo mudava, um 'casamento na Grace' continuava tradição inalterável. E era naquela biblioteca que ele e May discutiam o futuro dos filhos: os estudos de Dallas e do irmão mais novo, Bill; a indiferença de Mary pela 'cultura' e sua paixão pelo esporte e pela caridade; e o vago interesse pela arte que levara o inquieto Dallas ao escritório de um jovem arquiteto nova-iorquino. Os moços de agora afastavam-se do direito e dos negócios e tentavam toda sorte de novidades. Quando não se metiam na política do estado ou na reforma municipal, dedicavam-se à arqueologia da América Central, à arquitetura ou à engenharia paisagística. Olhavam com interesse apaixonado e erudito a arquitetura anterior à Revolução do próprio país, estudavam e adaptavam o estilo georgiano e protestavam contra o uso absurdo do termo 'colonial'. Hoje ninguém mais tinha casas 'coloniais', salvo os ricos quitandeiros dos subúrbios.
Mas acima de tudo — e às vezes Archer julgava isso o mais importante — foi nesta biblioteca que o governador de Nova York, descendo de Albany para jantar e passar a noite, bateu com o punho na mesa e, limpando os óculos, lhe disse: 'Ao diabo com todos esses politiqueiros! Archer, o país precisa de homens como o senhor. Se é para limpar o estábulo, homens como o senhor têm de arregaçar as mangas e ajudar.' 'Homens como o senhor!' Como aquela frase o comovera! Com que entusiasmo se levantara àquele chamado! Era o eco do que Ned Winsett dizia anos antes: o convite a arregaçar as mangas e entrar na lama. Mas desta vez chamava alguém que punha o convite em prática, e a ordem de segui-lo era irresistível.
Olhando para trás, Archer não tinha certeza de que homens como ele fossem realmente necessários ao seu país, ao menos no papel ativo que Theodore Roosevelt apontava. Havia até razão para crer que não. Depois de um ano na legislatura do estado, não foi reeleito; recolheu-se, agradecido, ao trabalho municipal obscuro mas útil, e dali a escrever de vez em quando num semanário reformista que queria sacudir a indiferença do país. Não havia muito que contemplar; mas quando pensava na sua geração e nos moços à sua volta, que olhavam o futuro apenas pela estreita fresta do dinheiro, do esporte e da vida social, sentia que também ele pusera algo no mundo novo. Sua pequena contribuição valia como cada tijolo de um muro bem erguido. Não fizera grandes coisas na vida pública, e por temperamento seria sempre um contemplativo e um amador. Mas contemplara valores altos, gozara de coisas grandes e tivera um grande amigo que lhe dava força e orgulho.
Em suma, tornara-se o que aos poucos passaram a chamar de 'um bom cidadão'. Em Nova York, durante anos, todo movimento novo, toda obra de caridade, toda reforma municipal ou empreendimento artístico precisara de sua opinião e quisera seu nome. Quando alguém queria fundar a primeira escola para crianças com deficiência, reorganizar o museu de arte, criar o Grolier Club, abrir uma biblioteca nova ou formar uma sociedade de música de câmara, dizia-se: 'Pergunte a Archer.' Seus dias eram cheios, e cheios com dignidade. Parecia-lhe vida suficiente para um homem. Mas sabia que perdera algo: a própria flor da vida. Agora, porém, aquilo lhe parecia tão inatingível e improvável que lamentá-lo seria como desesperar-se por não ter tirado o prêmio maior de uma loteria. Sua loteria tinha cem milhões de bilhetes e um só prêmio; as probabilidades claramente não estiveram do seu lado. Quando pensava em Ellen Olenska, fazia-o de modo abstrato e sereno, como se pensa numa amada imaginária de um livro ou de um quadro. Ela se tornara a imagem composta de tudo o que ele perdera. E essa imagem, tênue e frágil, o impedira de pensar em outras mulheres.
Fora o que se chama um marido fiel; e quando May morreu de repente de uma pneumonia contagiosa, contraída cuidando do filho mais novo, ele a chorou sinceramente. No longo casamento, os dois haviam aprendido que, ainda que o casamento seja um dever monótono, importa guardar sua dignidade como dever. Perdida essa dignidade, o casamento não passa de uma luta de apetites feios. Olhou em volta, honrou seu antigo eu e o chorou. Afinal, a maneira antiga tinha o seu bem. O olhar percorreu a sala, passou pelas gravuras inglesas que Dallas pendurara, pelo armário Chippendale, pela porcelana azul e branca escolhida com cuidado e pelas lâmpadas elétricas de luz suave. E voltou à velha escrivaninha Eastlake, de que nunca conseguira se desfazer, e ao primeiro retrato de May, ainda ao lado do tinteiro. Ali estava ela: alta, de peito cheio e cintura flexível, no vestido de musselina engomada e no chapéu de palha ao vento, tal como a vira pela primeira vez sob as laranjeiras do jardim da Missão.
E tal como a vira naquele dia, assim ela permaneceu: nem sempre igual, mas nunca longe disso; generosa, fiel, incansável. Mas faltava-lhe imaginação e a capacidade de crescer, de modo que o mundo de sua juventude se despedaçou e se reergueu sem que ela percebesse a mudança. Sua cegueira firme e luminosa mantinha inalterado o horizonte próximo que ela olhava. Como não percebia as mudanças, os filhos lhe escondiam suas ideias, e Archer também. Nasceu assim, desde o começo, um fingimento comum, o de que tudo continuava igual: uma espécie de inocente hipocrisia familiar que pai e filhos teciam sem saber. E ela deixou o mundo julgando-o um bom lugar, cheio de famílias amorosas e harmoniosas. Estava certa de que Newland continuaria a incutir em Dallas os princípios e preconceitos que haviam formado suas vidas, e de que Dallas, quando Newland a seguisse, passaria essa herança sagrada ao pequeno Bill. De Mary estava tão certa quanto de si mesma. Assim, depois de arrancar o pequeno Bill da doença e dar a vida no esforço, foi satisfeita para o jazigo dos Archer em São Marcos, onde já repousava a sra. Archer, a salvo daquela 'corrente' terrível que a nora nunca chegou a perceber.
Diante do retrato de May estava o da filha, Mary Chivers. Mary Chivers era alta e loura como a mãe, mas de cintura larga, peito plano e ombros um pouco curvados, conforme a mudança dos tempos. Os grandes feitos atléticos de Mary Chivers jamais teriam sido possíveis com a cintura de vinte polegadas que a faixa azul-celeste de May Archer cingia sem esforço. E a diferença tinha sentido simbólico. A vida da mãe fora tão apertada quanto o seu talhe. Mary era igualmente convencional e não mais inteligente, mas levava uma vida mais ampla e tinha opiniões mais tolerantes. A ordem nova também tinha o seu bem. O telefone tocou. Archer desviou os olhos dos retratos e tirou o fone do gancho. Como estavam longe os dias em que o mensageiro de botões de latão era o único meio rápido de comunicação em Nova York! 'Chamada de Chicago.' Ah, seria Dallas. A firma o mandara a Chicago para discutir os planos do palácio à beira do lago de um jovem milionário de ideias originais. Sempre davam a Dallas essas missões.
'Alô, pai. Sim, é o Dallas. Que tal embarcar na quarta-feira? No Mauretania. Sim, quarta que vem. Nosso cliente quer que eu veja alguns jardins italianos antes de decidir. Pediu que eu fosse e voltasse no primeiro navio. Preciso estar de volta no primeiro de junho.' Riu de puro contentamento e prosseguiu: 'Então temos de correr. Pai, peço sua ajuda: venha comigo.' A voz de Dallas soava como se ele falasse dentro da sala, tão perto como se estivesse acomodado na poltrona junto à lareira. Normalmente essa chamada não teria surpreendido Archer: o telefonema interurbano tornara-se tão corriqueiro quanto a luz elétrica ou a travessia do Atlântico em cinco dias. Mas aquele riso o sobressaltou. Ainda lhe parecia prodigioso que, através de tantas florestas e rios, montanhas e planícies, cidades atarefadas e multidões indiferentemente ocupadas, o riso de Dallas pudesse dizer: 'Claro, aconteça o que acontecer tenho de estar de volta no dia primeiro: Fanny Beaufort e eu nos casamos no dia cinco.'
A voz voltou. 'Vai pensar? Não, pai. Precisa responder agora mesmo. Eu gostaria de ouvir uma única razão para não ir, se é que o senhor tem alguma. Não, já vi. Então está decidido? Amanhã cedo telefone ao escritório da Cunard e reserve os lugares. E é melhor pegar a volta por Marselha. Talvez seja a última vez que estejamos assim, nós dois sozinhos. Ah, ótimo! Eu sabia que o senhor diria sim.' Cortada a ligação com Chicago, Archer levantou-se e começou a andar pela sala. Seria a última vez que estariam assim, ele e o filho sozinhos. O rapaz tinha razão. Haveria muitas outras 'vezes' depois do casamento de Dallas, disso o pai tinha certeza: os dois eram camaradas natos, e fosse quem fosse Fanny Beaufort, não parecia capaz de atrapalhar aquela intimidade. Ao contrário, pelo que Archer via, ela entraria nela com toda a naturalidade. Mas mudança é mudança, e diferença é diferença. Embora se sentisse atraído pela futura nora, custava-lhe resistir à tentação de aproveitar a última ocasião de estar a sós com o filho.
Não havia razão verdadeira para não aproveitá-la, salvo que perdera o hábito de viajar. May não gostava de se mover sem motivo razoável, como levar as crianças ao mar ou à montanha. Não via razão para deixar a casa cômoda da Rua Trinta e Nove ou a dos Welland em Newport. Quando Dallas terminou os estudos, ela julgou ser seu dever e viajaram seis meses: a família toda fez o clássico giro europeu pela Inglaterra, Suíça e Itália. O tempo era curto, e — ninguém soube por quê — foi preciso deixar a França de fora. Archer lembrava-se da indignação de Dallas, que queria ver as catedrais de Reims e Chartres e a quem se ofereceu, em troca, o Mont Blanc. Mas Mary e Bill queriam escalar, e já se entediavam de seguir Dallas pelas catedrais inglesas. May, que sempre quis ser justa com os filhos, esforçou-se por equilibrar seus pendores esportivos e artísticos. Chegou a propor que o marido passasse duas semanas em Paris e se juntasse a eles nos lagos italianos quando ela e as crianças tivessem 'terminado' a Suíça; mas Archer recusou. 'Ficaremos juntos', disse; e May pareceu contente por dar a Dallas um bom exemplo.
Agora, quase dois anos depois da morte dela, não havia razão para seguir a mesma rotina. Os filhos desejavam que o pai viajasse. Mary Chivers tinha certeza de que lhe faria bem ir ao estrangeiro e 'ver museus'. O mistério de tal remédio a convencia ainda mais. Mas a Archer prendiam o hábito, as lembranças e um medo súbito do novo. Agora, olhando para trás, via em que sulco fundo caíra. O pior de cumprir o dever era que isso justamente o deixava impróprio para qualquer outra coisa. Ao menos assim fora com os homens de sua geração. A linha nítida entre o bem e o mal, entre a honestidade e a desonestidade, entre o respeitável e o seu contrário, deixava pouquíssimo espaço para o inesperado. Há momentos em que a imaginação de um homem, facilmente esmagada pelo meio em que viveu, se ergue de repente acima do nível cotidiano e abarca as longas e complicadas voltas do destino. Archer ficou ali, suspenso, pensando...
Que restava do pequeno mundo em que crescera, daquelas medidas que o haviam dobrado e atado? Lembrou-se da profecia zombeteira que o pobre Lawrence Lefferts fizera, anos antes, naquela mesma sala: 'Se isso continuar, nossos filhos se casarão com os bastardos de Beaufort.' E era exatamente o que fazia agora o filho mais velho de Archer, seu orgulho. E ninguém se espantava nem censurava. Até a tia Janey de Dallas, em nada mudada desde a juventude sempre envelhecida, tirou do algodão rosa as esmeraldas e as perolazinhas da mãe e as pôs, trêmula, nas mãos da futura noiva. E Fanny Beaufort, longe de se decepcionar por não receber um 'conjunto' de um joalheiro de Paris, admirou sua beleza antiga e declarou, encantada, que com aquelas joias se sentiria como uma figura de um retrato de Isabey.
Fanny Beaufort, que apareceu em Nova York aos dezoito anos, após a morte dos pais, conquistou a cidade como fizera a condessa Olenska trinta anos antes; só que a receberam com alegria, sem desconfiança nem temor. Era bonita, alegre e dotada: que mais se podia querer? Ninguém foi tão mesquinho a ponto de desenterrar os fatos meio esquecidos do passado do pai dela e de sua própria origem. Só os mais velhos se lembravam da falência de Beaufort nos negócios de Nova York, e de como, morta a mulher, ele casou discretamente com a famosa Fanny Ring e partiu com a nova esposa e uma filha que herdou sua beleza. Depois vieram notícias de Constantinopla, em seguida da Rússia; e uns doze anos mais tarde de Buenos Aires, onde ele representava uma companhia de seguros e recebia com fausto os viajantes vindos dos Estados Unidos. Ali morreu, em plena prosperidade, junto com a mulher. E um dia a filha órfã apareceu em Nova York sob a proteção da sra. Jack Welland, cunhada de May Archer. Jack Welland foi nomeado tutor da moça, o que a tornava quase prima dos filhos de Newland Archer. Por isso ninguém se surpreendeu quando o noivado de Dallas foi anunciado. Nada mostrava melhor o quanto o mundo avançara. Hoje as pessoas andavam ocupadas demais: entre reformas e 'movimentos', modas e superstições e mil miudezas, não sobrava tempo para o vizinho. Que importava o passado de alguém naquele imenso caleidoscópio em que todos os átomos sociais giravam num mesmo plano?
Newland Archer, olhando pela janela do hotel a elegante animação das ruas de Paris, sentiu o coração bater de confusão e anseio. Fazia muito que ele não mergulhava e disparava assim sob um colete cada vez mais largo. No instante seguinte sentiu o peito vazio e as têmporas quentes. Perguntou-se se o filho sentia o mesmo junto de Fanny Beaufort, e concluiu que não. 'O coração dele funcionará às mil maravilhas, mas em outro ritmo', pensou, lembrando a calma fria com que o rapaz anunciara o noivado, dando por certa a bênção da família. 'A diferença é que estes jovens dão por certo que terão o que querem, enquanto nós dávamos quase sempre por certo que não teríamos. Mas fico pensando numa coisa: pode o coração bater tão forte por algo de que se está tão seguro de antemão?' Era o dia seguinte à chegada a Paris. O sol de primavera o retinha à janela aberta sobre a ampla e prateada praça Vendôme. Uma das poucas condições — quase a única — que impusera ao aceitar viajar com Dallas foi não se hospedar em Paris num daqueles 'palácios' da moda. 'Ah, claro, sem dúvida', dissera Dallas de bom grado. 'Vou levá-lo a um lugar simpático e antigo, coisa como o Bristol.' O pai ficou sem palavras ao ouvir que um lugar onde reis e imperadores haviam morado por mais de cem anos era agora chamado de hospedaria antiquada, aonde se ia para apreciar seus desconfortos e a cor local que ainda restava.
Nos primeiros anos, Archer imaginara muitas vezes, inquieto, sua volta a Paris. Depois a visão pessoal se apagou, e ele quis ver a cidade apenas como o cenário da vida da condessa Olenska. Sentado sozinho à noite na biblioteca, quando a casa dormia, evocava o esplendor da primavera irrompendo ao longo das aleias de castanheiras, as flores e as estátuas dos jardins públicos, o cheiro dos lilases nos carrinhos de flores, o rio correndo majestoso sob as grandes pontes, e as ruas de uma cidade cheia de artes, saberes e prazeres. Agora aquele espetáculo se abria esplêndido diante de seus olhos, e ele se sentia tímido, antiquado, deslocado: apenas um grão de poeira cinzenta ao lado da pessoa magnífica e implacável que sonhara ser. Dallas pôs-lhe alegremente a mão no ombro. 'Olá, pai. É magnífico, não é?' Olharam um instante em silêncio, e então o rapaz continuou: 'A propósito, tenho um recado para o senhor. A condessa Olenska espera nós dois às cinco e meia.' Disse-o com leveza, de passagem, como quem dá uma informação corriqueira, o horário do trem para Florença, por exemplo. Archer olhou-o e julgou ver em seus olhos jovens e vivos o brilho travesso da bisavó Mingott.
'Ah, não lhe contei?', continuou Dallas. 'Fanny me fez jurar que faria três coisas em Paris: conseguir as partituras do último Debussy, ir ao Grand Guignol e visitar a condessa Olenska. O senhor sabe que ela foi muito boa com Fanny quando Beaufort a mandou de Buenos Aires para Assunção. Fanny não tinha um amigo em Paris, e a condessa foi carinhosa com ela e a levava a passear nas férias. Creio que era amiga íntima da primeira sra. Beaufort. E, além disso, é nossa prima. Então liguei para ela hoje de manhã antes de sair e disse que o senhor e eu estávamos em Paris por dois dias e queríamos vê-la.' Archer continuava a fitá-lo. 'Você lhe disse que eu estava aqui?' 'Claro, por que não?' Dallas ergueu as sobrancelhas, divertido. E como não veio resposta, passou o braço do pai sob o seu e apertou-o com cumplicidade. 'Pai, me diga: como ela era?'
Archer sentiu o rosto arder sob o olhar franco do filho. 'Diga a verdade: vocês eram bons amigos, não eram? Ela não era linda?' 'Linda? Não sei. Ela era... diferente.' 'Ah, é isso! No fim é sempre isso, não é? Quando aparece uma assim, ela é 'diferente', e não se sabe por quê. É exatamente o que sinto por Fanny.' O pai recuou um passo e soltou-lhe o braço. 'Por Fanny? Mas, meu filho, tomara! Só que não o entendo bem.' 'Ah, pai, não seja antiquado, por favor. Ela não foi... antigamente... a sua Fanny?' Dallas pertencia de corpo e alma a uma geração nova. Era o primogênito de Newland e May Archer, mas fora impossível ensinar-lhe o segredo. 'De que serve fazer mistério? Depois as pessoas ficam ainda mais curiosas para bisbilhotar', respondia quando lhe recomendavam prudência. Mas Archer via em seus olhos, por trás da brincadeira, o afeto de um filho.
'Minha Fanny?' 'Bem, a mulher por quem o senhor teria largado tudo, só que não largou', prosseguiu o assombroso filho. 'Não larguei', repetiu Archer com certa solenidade. 'Claro. A sua geração era assim, afinal. Mas mamãe me contou.' 'Sua mãe?' 'Sim, na véspera de morrer. Chamou-me sozinho, lembra? Disse que com o senhor estaríamos sempre seguros, porque uma vez, quando ela pediu, o senhor abriu mão do que mais queria.' Archer recebeu em silêncio aquelas palavras estranhas. Seus olhos fitavam sem ver a praça inundada de sol sob a janela. Por fim disse em voz baixa: 'Ela nunca me pediu isso.' 'Ah, é verdade, esqueci. Vocês nunca pediam nada um ao outro, não é? Nem diziam nada. Ficavam sentados, olhando um para o outro, adivinhando o que se passava por dentro. Como surdos-mudos um para o outro! E no entanto aposto que vocês se conheciam mais do que nós, que não temos nem tempo de descobrir o que pensamos. Mas, pai', interrompeu-se Dallas, 'o senhor não está zangado comigo? Se estiver, façamos as pazes e vamos almoçar no Henri: depois preciso ir a Versalhes.'
Archer não foi a Versalhes com o filho. Preferiu passar a tarde percorrendo Paris sozinho. Precisava enfrentar de uma só vez a enxurrada acumulada de pesares e lembranças que nunca soubera pôr em palavras. Passado um tempo, deixou de lamentar a indiscrição de Dallas. Saber que alguém adivinhara seu coração e sentira pena parecia, afinal, soltar a corrente que lhe apertava o peito. E que tivesse sido sua mulher o comovia de modo indizível. Dallas tinha uma intuição afetuosa, mas não teria compreendido esse sentimento. Para o rapaz, o episódio seria apenas um caso lamentável de renúncia inútil e de forças desperdiçadas. Mas teria sido só isso? Archer ficou longo tempo sentado num banco dos Campos Elísios, pensando, enquanto a corrente da vida passava a seu lado... A poucas ruas dali, dentro de algumas horas, Ellen Olenska esperava. Ela nunca voltara para o marido, e quando ele morreu, anos antes, ela não mudou seu modo de viver. Agora nada podia separá-los. E naquela tarde ele iria vê-la.
Levantou-se e atravessou a praça da Concórdia e o jardim das Tulherias até o Louvre. Ela lhe dissera uma vez que ia com frequência ao Louvre, e ele quis passar um tempo num lugar onde talvez ela estivesse estado havia pouco. Por mais de uma hora percorreu as galerias na luz da tarde, e um após outro os quadros vieram ao seu encontro com esplendor esquecido, enchendo-lhe a alma de um longo eco de beleza. Afinal, sua vida fora seca demais... De repente, diante de um Ticiano deslumbrante, disse a si mesmo: 'Mas eu tenho apenas cinquenta e sete anos.' E se voltou. Era tarde para sonhos de pleno verão; mas não era tarde, pensou, para a colheita serena da amizade e da companhia naquela quietude abençoada de tê-la perto. Voltou ao hotel onde ele e Dallas deviam se encontrar;
e juntos atravessaram de novo a praça da Concórdia e a ponte que leva à Câmara dos Deputados. Sem suspeitar do que se passava no ânimo do pai, Dallas falava de Versalhes com entusiasmo transbordante. Só o vira de relance uma vez, em férias em que quis recuperar de um golpe tudo o que a viagem da família à Suíça lhe negara; e por isso o fervor e a crítica segura se atropelavam em seus lábios. Ao ouvi-lo, Archer sentiu ainda mais a própria insuficiência e impotência. Sabia que Dallas não era um rapaz obtuso, mas ele tinha a desenvoltura e a confiança de quem olha o destino como igual e não como senhor. 'É isso: os de agora se sentem iguais a tudo no mundo e conhecem bem o seu caminho', dizia consigo Archer, vendo em Dallas o porta-voz da geração nova que varrera todas as medidas antigas. Com elas haviam sumido também os marcos e os sinais de perigo.
De repente Dallas parou e agarrou o braço do pai. 'Oh, veja!', exclamou. Tinham saído para a grande praça arborizada diante dos Invalides. A cúpula de Mansart flutuava misteriosamente sobre as árvores em botão e a longa fachada cinzenta do edifício. Como se atraísse para si toda a luz da tarde, pendia ali como símbolo visível da glória de um povo. Archer sabia que a condessa Olenska morava perto de uma pracinha, numa das ruas que partem dos Invalides, e imaginara aquele bairro como lugar tranquilo e quase discreto, esquecendo o esplendor central que o iluminava. Agora, por um estranho encadeamento, aquele brilho dourado se tornava a luz que enchia o mundo em que ela vivia. Por quase trinta anos, a vida dela — essa vida que ele tão pouco conhecia — correra naquela atmosfera rica, já densa e excitante demais para os pulmões dele. Pensou nos teatros a que ela teria ido, nos quadros que teria olhado, nas casas antigas que teria frequentado, nas pessoas com quem teria falado, e no fluxo incessante de ideias e imagens que produzem pessoas muito sociáveis dentro de uma antiga moldura de boas maneiras. E lembrou-se de repente do que um jovem francês lhe dissera: 'Ah, a boa conversa: não há nada igual no mundo, não é verdade?' Archer não vira nem soubera nada do sr. Rivière havia quase trinta anos; e esse fato lhe mostrava como ignorava a vida da condessa Olenska.
Meia vida os separava, e ela passara aqueles longos anos entre gente que ele não conhecia, numa sociedade que mal podia adivinhar, num ambiente que jamais compreenderia por completo. Nesse tempo ele vivera guardando na memória a juventude dela; mas ela teria tido, sem dúvida, outros companheiros mais concretos. Talvez também ela o tivesse guardado como lembrança; mas uma lembrança assim fica como relíquia numa capelinha escura em que não há tempo de rezar todo dia... Atravessavam a praça dos Invalides e seguiam por uma das ruas que ladeiam o edifício. Apesar de sua história gloriosa, era um bairro tranquilo; e isso mostrava quanta riqueza Paris guarda, e como essas cenas ficam para uns poucos e para os indiferentes. O dia se apagava num crepúsculo suave, aqui e ali acendia-se uma luz amarela, e na pracinha a que chegaram havia poucos transeuntes.
Dallas parou outra vez e olhou para cima. 'Deve ser aqui', disse, passando o braço sob o do pai. O gesto não constrangeu Archer, e os dois olharam juntos para a casa. Era um edifício moderno, sem traços marcantes, mas de larga fachada creme cheia de janelas e sacadas de belo desenho. Numa delas, suspensa acima das copas dos castanheiros da praça, o toldo continuava baixado, como se o sol acabasse de deixá-la. 'Que andar será?', disse Dallas; e chegando-se ao portão, meteu a cabeça na portaria e voltou dizendo: 'O quinto. Deve ser o do toldo.' Archer ficou imóvel, olhando as janelas altas como quem chegou ao fim de uma peregrinação. 'Pai, já vão ser seis horas', lembrou-lhe enfim o filho. O pai voltou os olhos para um banco vazio sob as árvores. 'Acho que vou me sentar ali um instante', disse. 'Por quê? Está passando mal?', perguntou o filho, surpreso. 'Não, nada disso. Mas prefiro que você suba sozinho.' Dallas parou diante dele, desconcertado. 'Mas, pai, o senhor mesmo não vai subir?' 'Não sei', respondeu Archer devagar. 'Se o senhor não subir, ela não vai entender.' 'Suba, meu filho. Talvez eu o siga.'
Dallas olhou-o longamente no crepúsculo. 'Mas o que digo a ela?' 'Meu amigo, você sempre sabe o que dizer', respondeu o pai com um sorriso. 'Muito bem. Direi que o senhor é antiquado e prefere subir cinco andares a pé porque não gosta de elevadores.' O pai sorriu de novo. 'Diga que sou antiquado: isso basta.' Dallas olhou-o mais uma vez, fez um gesto de incredulidade e sumiu sob o arco da entrada. Archer sentou-se no banco e continuou a olhar a sacada do toldo. Calculou o tempo que o filho levaria para subir de elevador ao quinto andar, tocar a campainha, entrar no vestíbulo e ser conduzido à sala. Imaginou-o entrando naquela sala com seu passo seguro e seu sorriso encantador, e perguntou-se se teriam razão os que diziam que o filho 'se parecia com ele'. Tentou imaginar quem já estaria na sala. Àquela hora de visitas haveria decerto várias pessoas, e entre elas uma mulher pálida e morena que ergueria rápido a cabeça, se levantaria pela metade e estenderia uma mão longa e fina com três anéis... Pensou que ela estaria no canto do sofá, junto à lareira, com azaleias na mesa atrás.
'Para mim é mais real ficar aqui do que subir lá em cima', ouviu-se murmurar de repente. E com medo de que se desvanecesse aquela última sombra de realidade, continuou no banco enquanto os minutos passavam. Ficou ali muito tempo, na escuridão crescente, sem tirar os olhos da sacada. Por fim brilhou uma luz nas janelas e, pouco depois, um criado saiu à sacada, recolheu o toldo e fechou as venezianas. Como se aquele fosse o sinal que esperava, Newland Archer levantou-se devagar e voltou sozinho para o hotel.